Vida após a morte
Ao contrário do que acontecia no restante do mundo, naquela cidade ninguém mais morria já há algum tempo. Um grande tempo, na verdade. Ninguém desconfiara no começo mas, dada a natureza perecível da vida humana, em algum momento o fato passou a ser notado. A princípio com satisfação e um certo espanto - afinal, todos se perguntavam quem seria o próximo primeiro, fazendo apostas em que ninguém acreditava e nas quais todos solidarizavam-se com o outro.
De fato, nos primeiros meses nada parecia muito anormal, pois poderia, sim, ser uma mera coincidência o afastamento da morte. Ora, não sendo um local que onde a fome e a violência estavam constantemente presentes, também não seria demais que as doenças se afastassem por algum tempo. Mesmo a velhice e o apodrecimento, se não os morais pelo menos os físicos, poderiam ser evitados com algum esforço e um pouco de sorte. Talvez o maior problema com que a população se preocupasse fosse justamente o fato de que, afastada a expectativa de que, em algum momento, deveriam pagar por seus pecados, estes pudessem ser praticados com ampla liberdade. Quando lembravam-se, contudo, de que, pela primeira vez, não apenas em suas vidas mas também em quase toda a existência humana, tudo era permitido, a própria possibilidade do retorno do Juízo lhes parecia um erro ainda maior.
Não que a convivência tenha-se deteriorado no decurso dos anos. Sendo um povo que conseguira evitar a presença da fome e da miséria, a liberdade não representava grande risco à sua integridade. O quê não significa dizer, é verdade, que fosse uma convivência feliz. A melhor forma de dizer algo sobre o acontecido era apenas: "Estranhamente as pessoas pararam de morrer". Nenhuma mudança adicional. Além do natural envelhecimento e do crescimento populacional, é claro, mas estes eram problemas facilmente contornáveis pela aptidão da comunidade à boa vida. O fato de ninguém deixar de estar presente não se tornou um problema, pois todos sabiam utilizar bem o lugar em que viviam. Não havia qualquer circunstância social que viesse a ser um problema novo. E quanto àqueles pré-existentes, com mais tempo de vida, a possibilidade de resolvê-los apenas poderia crescer.
Lustros, décadas e bodas e mais bodas adicionais, no entanto, tendem a ser tediosos. Não pelo fim da diversão. Pois esta pode ser criada em todas as circunstâncias, assim como a excitação e o prazer. O medo, contudo, não pode. E nem a sensação de que a perfeição é falha pode ser bem expressa. Muitos anos depois do fim da morte, o povo da cidade já se esquecera da primeira sensação. E não podia sentir a segunda.
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"I held the blade in trembling hands
Prepared to make it but just then the phone rang"
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Realizações nascem do real, de seus caminhos e desenvolvimentos. Nascem da vida do tempo, que é, afinal, a humanidade. Se não há mais mortes é porque a cidade construiu uma vida sem morte. Se a vida lhe pertence, se o Juízo foi superado, se o medo desapareceu, foi porque puderam fazer com que tudo isso se realizasse.
Se não havia, porém, outra alternativa não seria porque erraram em algum momento?
